“Abençoar e pregar”

O que é estudar? O caminho da studiositas e o perigo da curiositas

Foto de Padre José Eduardo

Padre José Eduardo

Sacerdote, pároco e professor.

Muita gente diz: “Padre, precisamos estudar”. E eu sempre respondo: claro, precisamos. Mas antes de estudar, é preciso responder uma pergunta muito mais fundamental: o que é estudar?

 

Se eu não sei o que é o estudo, a minha tentativa de estudar se torna tão inútil quanto querer jogar futebol sem saber o que é futebol.

 

São Tomás de Aquino nos ajuda a entrar nesse tema quando distingue duas disposições do espírito: uma virtude — a studiositas — e um vício — a curiositas. Ambas parecem semelhantes na superfície, mas são radicalmente diferentes no modo de orientar o nosso intelecto.

 

A virtude da estudiosidade

 

A studiositas é, de modo simples, o zelo ordenado pela verdade. É quando aplicamos a nossa inteligência apenas às coisas dignas de serem conhecidas.

 

Isso exige uma seleção muito cuidadosa. Há livros que não nos ajudam em nada. Livrinhos superficiais, de espiritualidade desestruturada, que mais parecem autoajuda gospel do que teologia. E isso vale tanto para protestantes quanto para católicos: quando nos alimentamos apenas de conteúdos fracos, acabamos construindo uma fé pobre, que não resiste ao menor exame.

 

O verdadeiro estudioso busca conhecer não por vaidade, mas:

– para amar mais a Deus,

– para defender a verdade,

– para contemplá-la,

– e, por fim, para transmiti-la aos outros (Contemplata aliis tradere).

 

A estudiosidade, portanto, exige algumas atitudes fundamentais.

 

  1. Humildade intelectual

 

Hugo de São Vítor dizia que a humildade é a base de todo aprendizado. E como isso é verdadeiro.

 

Eu encontro tanta gente que diz: “Padre, isso eu já sabia”. Será que sabia mesmo? Ou apenas tinha uma informação solta, sem intimidade profunda com aquilo?

 

Quem não é humilde lê tudo como juiz — nunca como discípulo. Sem humildade, não há estudo, há apenas opinião.

 

  1. Paciência

 

Estudar é árduo.

 

Na época do meu doutorado, eu me lembro de passar dias inteiros com trinta livros na mesa, seguindo referências, montando a estrutura de um argumento… e não escrever nenhuma linha no dia. Só depois de três dias de leitura intensa é que eu conseguia escrever uma página.

 

Isso é estudo. Sem paciência, repetimos o que ouvimos dos outros, mas nunca entendemos de verdade.

 

  1. Amor à verdade

 

O verdadeiro intelectual é escravo da verdade. Mesmo quando a verdade desmonta todo o castelo de ideias que ele construiu.

 

É preciso coragem para dizer: “eu me equivoquei”. E poucos hoje têm essa coragem.

 

O vício da curiosidade desordenada

 

A curiositas não é a curiosidade saudável que faz parte da vida intelectual. É o desejo desordenado de saber. E São Tomás descreve quatro formas desse vício — todas muito presentes em nossos tempos.

 

  1. Saber por vaidade

 

É estudar para “parecer inteligente”. Gente que aprende palavras difíceis só para impressionar, que coleciona informações inúteis para posar de sábia.

 

Isso não forma ninguém.

 

  1. Saber para manipular

 

Uma vez, conversando com um professor que me explicava técnicas comportamentais e de comunicação, ele me disse algo que nunca esqueci:

 

“Não estude essas coisas se a sua intenção for manipular. Quem quer ser intelectual precisa buscar a verdade pela verdade.”

 

O conhecimento usado como instrumento de manipulação é uma perversão da inteligência.

 

  1. Saber inútil e fútil

 

Essa é a forma mentis de grande parte do Brasil hoje. As pessoas querem saber das fofocas, da vida das celebridades, das polêmicas da internet… conhecimento que não edifica nada.

 

E a memória, minha gente, é limitada. Quando a enchemos com banalidades, não sobra espaço para o que realmente importa.

 

  1. Saber sem método

 

Há pessoas que são ratos de biblioteca… mas sem método nenhum. Pulam de assunto em assunto, acumulando informações desconexas.

 

A mente se torna uma “biblioteca desorganizada”: muita coisa dentro, nada ordenado.

 

Exemplos concretos da vida de estudo

 

  1. Quando passei a noite inteira estudando Duns Escoto
  2. Livros raros que aguardam o momento certo
  3. As interpretações equivocadas causadas pela falta de leitura real

 

Os quatro passos do estudo segundo São Tomás

 

  1. Ler
  2. Meditar
  3. Guardar na memória
  4. Praticar

 

A língua portuguesa como instrumento de estudo

 

Cuidar da língua é cuidar do pensamento. Quando abandonamos o português e enchemos tudo de termos estrangeiros desnecessários, empobrecemos o modo de pensar.

 

Conselhos práticos para quem quer realmente estudar

 

  1. Tenha horários
  2. Estude diante de Deus
  3. Comece pelo começo
  4. Tome notas e ensine
  5. Persevere

 

O estudo como forma de oração

 

São Domingos sempre ensinou que estudar é uma forma de amar a Deus. Quando estudamos movidos pela busca sincera da verdade, fazemos do intelecto um altar.

 

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