“Abençoar e pregar”

O ESCATOLOGISMO OCULTO (OU INCONSCIENTE) DOS MOVIMENTOS TRADICIONALISTAS

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Padre José Eduardo

Sacerdote, pároco e professor.

Pe. Dr. José Eduardo de Oliveira e Silva



Há temas que não aparecem na superfície, mas que movem silenciosamente placas tectônicas inteiras na psique religiosa do nosso tempo. O tradicionalismo — tomado aqui não como amor autêntico à Tradição, mas como movimento ideológico — é um desses continentes onde, sob o verniz das discussões doutrinais, litúrgicas e canônicas, pulsa um núcleo escatológico que raramente é admitido. Não é o caso de dizer que todos os que orbitam esse universo estão contaminados pela mesma lógica; seria injusto e falso. Há homens sérios, cultos, profundamente eclesiais, que apenas se sentem feridos por uma crise real. Mas, por trás do ruído argumentativo, por trás da multiplicação de blogs, vídeos e panfletos, há uma espécie de radiação de fundo espiritual, um brilho de micro-ondas do imaginário apocalíptico que denuncia uma origem mais antiga e uma estrutura mais profunda do que se quer reconhecer.

Esse imaginário, longe de ser exclusivo da modernidade tardia, encontra seu embrião nas velhas seitas dualistas — cátaros, albingenses e congêneres — que julgavam possível acelerar a parusia por meios tão lúgubres quanto coerentes com sua antropologia: a recusa da prole, o suicídio ritualístico, a proibição do matrimônio, a extinção da carne como senha de libertação. Ali nasce o primeiro vício de método: o desespero com o tempo. A recusa da lentidão divina.A intolerância com o intervalo. A antiga tentação de tomar a História nas próprias mãos, como se Deus estivesse atrasado e o homem fosse obrigado a destravar o mecanismo do fim.

A Reforma apenas revestiu essa velha lógica de letras de imprensa. Substituiu-se o ascetismo homicida pela exegese inflamada, mas a estrutura era a mesma: a Igreja apostatou. Cada reformador tinha seu “ano zero” preferido: para alguns, Constantino; para outros, Carlos Magno; para outros ainda, cada papa que ousava não caber em seus padrões. A leitura de 2 Tessalonicenses tornou-se o equivalente teológico do reagente químico que, ao pingar, denuncia o impuro: “primeiro deve vir a apostasia”. E a apostasia, curiosamente, coincide sempre com o sæculum imediatamente anterior ao do reformador — como se o universo fosse uma peça escrita para a glória póstuma de seus profetas.

Esse padrão narrativo repete-se com a monotonia de uma lei física: Anglicanos falam de uma sucessão paralela perdida, e da apostasia a partir de Gregório VII; protestantes, de uma Igreja corrompida desde Constantino; a Petite Église acusa Pio VI, por seus acordos com o governo francês; os vetero-católicos apontam o Vaticano I como momentum dessa apostasia; os sedevacantistas e certos tradicionalistas elevam o Vaticano II a marco da catástrofe. A história inteira se torna uma espiral descendente, e cada grupo se percebe como a última chama antes do apagão cósmico da fé.

A consequência é lógica: se a crise é irreversível, sua solução só pode ser escatológica. Assim, um sedevacantista razoavelmente informado explicará que São Pedro virá do céu para reinaugurar a linhagem apostólica, como se fosse possível derivar o futuro da Igreja por interrupção da sucessão sacramental. O sedeprivacionista, com seu requinte metafísico, dirá que os papas recentes são válidos materialmente mas inválidos formalmente, adormecidos numa espécie de coma espiritual; e que um grande milagre despertará, de uma só vez, toda a hierarquia. Há, ainda, o tradicionalismo de raiz francesa, impregnado do imaginário do Grande Monarca e do Grande Papa (segundo Hauzhauser), onde a França aparece como teatro natural do Reino de Deus — porque, afinal, até a eternidade precisa de um endereço francês. Outros reinterpretam essa figura em líderes escatológicos variados, e não faltam aqueles que elevam Lefebvre ao papel de “o grande prelado” que conduzirá um pequeno remanescente, uma arca litúrgica preparada para sobreviver à tribulação final (ele mesmo assumiu tal áurea, aplicando mal-disfarçadamente sobre si a profecia de Nossa Senhora do Bom Sucesso, em plena homilia das sagrações cismáticas de 1988). Mais além, há os milenaristas explícitos, que aguardam um período temporal de mil anos de glória como um desembarque celestial já mapeado.

O Padre Calderón, tão celebrado por presumidos (ou presunçosos?) tomistas, diz que a doutrina do Reinado Social de Jesus Cristo deve ser proclamada pelos católicos tradicionais, mas, pasmem!, isso não acontecerá, pois estamos correndo rumo à manifestação do anticristo. Portanto, exatamente como nos grupos satélites de tais movimentos, gritar “Viva Cristo Rei!” não consiste em agir como os cristeros nem em fazer a contrarrevolução, mas em jogar o alvo numa altura tão inacessível que implique na necessária adesão ao grupo diante de uma utopia teocrática que manterá todos unidos enquanto não se realizar – e não se realizará nunca! Esta é ou não é a essência mesma da psicologia revolucionária? A tal sociedade perfeita que funciona como a cenoura em frente ao coelho…

Esse tipo de imaginação apocalíptica não é um detalhe lateral: é o motor. Alimenta-se do desespero, retroalimenta a indignação, produz catarse, gera identidade. É uma escatologia que fornece uma estrutura de sentido abrangente, reorganiza o caos moral do mundo contemporâneo e produz a sensação intoxicante de que se vê além dos simples mortais. Por isso ama tanto o catastrofismo: porque precisa dele. Seleciona fatos como quem seleciona peças de um quebra-cabeça, ignorando tudo o que não confirme o desenho final. Aderem facilmente ao aparicionismo, ao conspiracionismo, às leituras codificadas da História, como se o universo fosse um grande palimpsesto aguardando decifradores iluminados. Nesse ambiente, a paciência cristã — aquela virtude que Cristo celebrou como o caminho da salvação — é substituída por uma urgência febril, por uma inquietação metabólica, por uma espécie de febre escatológica que só se acalma ao custo de novos diagnósticos de ruína.

Mas Cristo foi claro — claro ao ponto de constranger qualquer retórica que pretenda superá-lo: “muitos dirão: o tempo está próximo; não os sigais” (cf. Luc. XXI,8). O verbo grego indica precisamente isso: não marcheis atrás deles. Não entrem na coreografia do pânico religioso. São Paulo, de modo ainda mais direto, suplica aos tessalonicenses que não se deixem intimidar por quem difunde a ideia de que o Dia do Senhor é iminente (cf. II Tes. II,2). A Igreja inteira sempre soube que especular sobre datas, sucessões paralelas ou cenários apocalípticos não apenas é proibido, mas espiritualmente venenoso.

Não há um único movimento escatológico, ao longo de vinte séculos, que tenha terminado bem. Todos repetem o mesmo ciclo: indignação, isolamento, pureza autoproclamada, ruptura e colapso. A História não se cansa de mostrar que Deus não abre atalhos por causa da impaciência humana. A eternidade nunca foi acelerada pelo desespero dos homens.

E é exatamente nesse ponto que se revela a natureza profunda desses movimentos: o escatologismo é a forma mais evidente — e menos confessada — de cisma. Sempre que alguém afirma que a hierarquia está perdida irremediavelmente, que a crise não tem solução senão a catástrofe final, que a Igreja verdadeira está reduzida ao próprio grupo, e que tudo o mais é corrupção irrevogável, esse alguém já deixou a catolicidade, ainda que conserve um vocabulário católico, que professe a fé ortodoxa, que celebre os sacramentos e que use um hábito tonal de indignação moral. Não é por acaso que um desses “intelectuais de internet”, sem perceber a honestidade brutal do que dizia, resumiu sua doutrina numa frase que deveria ser estampada nos manuais de patologia espiritual: “não há expectativa de que a crise vá passar logo; venha para nossas paróquias tradicionais” – “paróquias” que não são paróquias, uma vez que não erigidas pela autoridade eclesiástica que eles juram reconhecer; que não são tradicionais, pelo mesmíssimo motivo.

No fundo, tudo isso não passa de uma recusa profunda do tempo, uma alergia à história, uma impaciência com a pedagogia divina. Esquecem que a eternidade não tem pressa, que o Espírito não trabalha com alarmes apocalípticos, que o Cristo ressuscitado sustentou Sua Igreja através de séculos muito piores. O resto é espuma. É radiação residual de um big bang de ressentimento religioso. É poeira cósmica de expectativas frustradas. É o brilho efêmero de uma estrela que já apagou, mas cuja luz retardada ainda atravessa o vazio da internet teológica.

A verdade é mais simples: a Igreja não está à beira do fim. A Igreja não tem prazo de validade. A Igreja não é uma teoria vulnerável, mas uma realidade sacramental sustentada pela promessa de Cristo. Quem aposta no colapso da Igreja revela apenas que já entrou no colapso interior do próprio coração. Porque, no fim das contas, contra ela — sempre — “não prevalecerão as portas do inferno” (Math. XVI,18) . E muito menos as portas estreitas de seitas apocalípticas travestidas de ortodoxia.